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Caminhos para conversar com as juventudes

Escrito po:

15/02/2006

Vera GasparettoJornalista e educadora - Escola Sindical Sul – Florianópolis – SC

   Num mundo mediado por veículos tão ágeis não é fácil chegar às juventudes por meio de um texto, ainda mais quando você se propõe a falar sobre um assunto longe do nosso dia-a-dia, como metodologias para trabalhar com as juventudes. Ou em outras palavras, o nome deste texto que você lê, que se propõe a pensar sobre os caminhos que o jovem militante e dirigente cutista pode seguir para mobilizar, organizar e articular as juventudes na sua base sindical.

Nesse período de realização do projeto recebemos o desafio de preparar um grupo de jovens dirigentes cutistas para serem formadores de outros jovens. Ufa! FORMAR, como diz o nosso querido dicionário Aurélio ‘dar forma a algo’, ‘instruir, educar, aperfeiçoar, ser, constituir, criar’.

Bom! A idéia na roda, vamos em frente... Nos encontros de preparação já veio a tempestade de idéias e de necessidades de temas e conteúdos para desenvolver nos cursos. Tudo sem esquecer dos meios, jeitos e modos que esses jovens poderiam utilizar para re-transmitir os conhecimentos na formação de jovens da base da CUT.

Surge então a grande questão: quem são os jovens que estão na base da CUT, quem são as juventudes trabalhadoras que estão no mercado formal de trabalho e qual será a melhor forma de dialogar com ela? Como chegar aos grupos que estão no mercado informal ou desempregados? Diante de tanta diversidade revelada pela pesquisa feita nos encontros setoriais dos ramos envolvidos no projeto (leia o artigo da Paula), qual será o ponto de identidade dessas juventudes que gravitam em torno da CUT?

O ponto de identidade desses jovens é o trabalho, que em nosso tempo tem um valor especial (existe tão pouco para tanta gente), de sobrevivência, mas também de encontros e trocas das juventudes no espaço social. Grande parte da estrutura da sociedade não está preparada para as realidades próprias de pessoas que vivem momentos de descoberta da vida e que pertencem a um dos grupos mais vulneráveis ao funil social e econômico e à dominação política e cultural.

 Mas afinal, por que a CUT quer agora, nos seus quase 23 anos, organizar as juventudes, é a outra questão que surge. Quem deve fazer a política para a juventude da CUT? São políticas da CUT para a juventude? Políticas de juventude para a CUT? Ou serão as duas opções?

Colocadas todas as perguntas na roda, os cursos foram desenhados e começamos a experimentar um caminho (ou metodologia): o respeito aos diferentes jeitos de pensar e de ser dos jovens e a liberdade de expressão: cada um poder ser o que é e aprender com o jeito dos outros.

Nos Cursos de Formação de Jovens Formadores tivemos a oportunidade de aprendermos juntos. Um laboratório de troca de experiências, de escuta, de fazer, conversar, criar e recriar, recuperando a coragem para mexer nas velhas práticas sindicais que precisam ser superadas. Especialmente o exercício da crítica e da autocrítica, que foi muito saudável e de grande crescimento para todo o grupo.

Como para isso não existe receita, os jovens dirigentes formadores foram desafiados a voltar para o seu dia-a-dia e organizar uma atividade com os jovens da sua base e a resposta foi surpreendente, pela diversidade. Foram cursos de formação de agentes de desenvolvimento solidário, curso de formação de novos dirigentes, cursos de formação sindical, torneios de futebol, preparação de oficinas de hip hop, debate sobre a reforma universitária, atividade de intercâmbio com jovens da Alemanha, reuniões e encontros de organização e reorganização de coletivos de jovens em diferentes espaços (local, estadual), seminários.

A conclusão que organizar atividades para os outros jovens precisa de ousadia e coragem para mexer com o lugar comum, trazendo novas formas de atividades, outros textos, outras linguagens – principalmente superar o sindicalês e entender as diferentes linguagens das diferentes tribos que formam as juventudes. Combinar a disciplina, o contrato, o compromisso, mas também a liberdade de expressão, a tolerância, a solidariedade. Espaço...

Talvez seja prematuro afirmar a permanência da juventude nesses espaços, mas o aumento da participação da base é visível e inegável, especialmente por que os temas das atividades fala da realidade desses jovens, que sentiram-se acolhidos, representados e principalmente espelhados. A comunicação com a juventude é fundamental porque cria vínculos fortes quando chega nas pessoas de alguma maneira que as mobiliza, despertando interesses primários (individual) e/ou secundários (cultural), Muniz Sodré dá o exemplo do espelho, que todo o indivíduo busca para se olhar: “Indagado por uma pesquisadora sobre o que gostaria de ver na televisão, um jovem engraxate da favela da Rocinha (Rio) responde: “Eu”.”

Um dos desafios colocados para o movimento sindical é oferecer espelhos para trabalhar com a diversidade ao seu redor e com a natural divergência que surge desse convívio. Não anular essa riqueza, mas sim considerá-la saudável, essencial, enriquecedora e fonte para a construção de novos paradigmas para o trabalho de base, onde as relações possam ser constituídas ao encontro do projeto político da Central Única dos Trabalhadores.

Alguns relatos dão conta de que o caminho percorrido está correto: jovens mulheres assumem coordenações, em muitos ramos aumenta o interesse pelo assunto juventude, trazendo novos associados, novas idéias e iniciativas trazem mais disposição para os jovens trabalhadores participarem, com muita sede de conhecimento e vontade de continuar.

Bom, das dificuldades de lidar com os dirigentes “adultos” e de transformar o cotidiano, de tratar com os próprios jovens temas como sexualidade, livre orientação sexual, machismo, racismo, preconceito, relações de poder, vale citar. São, contudo, apenas motivos de estímulo para a longa jornada que temos pela frente para mexer com os corações e as cabeças e seduzir o jovem e a jovem trabalhador/a para construir uma nova sociedade.

Nosso desafio em especial é mexer com valores e práticas sobre a livre opção sexual e a cultura machista: as relações de poder muito velhas que se renovam a cada geração.
E já que se tratam de palavras, o Projeto faz com que as pessoas envolvidas dêem novos sentidos às lindas palavras que parecem perdidas no tempo: felicidade, sonho, utopia, ética e solidariedade precisam da vitalidade que somente com a ação concreta será possível. 

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