Escrito por: Escola Sul da CUT

Terras raras e IA: Brasil ocupa centro de uma disputa estratégica global por soberan

Salete Martins - Com reservas de terras raras e avanço da inteligência artificial, o Brasil ganha força na disputa global por tecnologia, soberania e desenvolvimento, colocando o interesse nacional no debate.

Este texto é resultado de uma reflexão construída a partir de duas palestras que a formadora da Escola Sul, Salete Martins, participou como ouvinte. Uma com Sérgio Sacani, geofísico, pesquisador e divulgador científico de astronomia no Brasil, e outra com Miguel Nicolelis, médico, pesquisador e neurocientista reconhecido mundialmente como pioneiro no estudo de interfaces cérebro-máquina (ICM). As exposições dialogam com preocupações, debates e questões que vêm atravessando os percursos formativos da Escola Sul e mostram que inteligência artificial, mineração e exploração espacial estão inseridas em uma mesma disputa por tecnologia, recursos naturais, poder e futuro. Para o movimento sindical e, especialmente, para a juventude, compreender essas relações é cada vez mais necessário. 
Quando falamos em inteligência artificial, a primeira coisa que imaginamos costuma ser a tela do computador, o celular ou algum programa capaz de produzir textos, imagens e respostas em poucos segundos. Mas as palestras de Sérgio Sacani e Miguel Nicolelis, ajudam a retirar a tecnologia desse mundo aparentemente mágico e recolocá-la onde ela realmente está, na sociedade, no trabalho, na natureza e nas relações de poder.
Sérgio Sacani conduz uma exposição voltada à relação entre ciência, tecnologia e exploração espacial, conectando três questões que estão no centro das disputas atuais: inteligência artificial, terras raras e a Lua. Já Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro com longa trajetória de pesquisa sobre o cérebro e interfaces entre cérebro e máquinas, coloca outra pergunta na mesa. Até que ponto a inteligência artificial é realmente inteligente e o que acontece quando delegamos às máquinas parte da nossa capacidade de pensar, produzir conhecimento e decidir? 
São abordagens diferentes, mas, juntas, elas ajudam a perceber que quem controla a tecnologia não controla apenas máquinas. Controla recursos, informações, decisões e parte importante dos caminhos que a sociedade poderá seguir.


Do algoritmo à mina: a disputa pelas terras raras brasileiras 
O pesquisador Sérgio Sacani ajuda a desmontar uma ilusão bastante comum. A inteligência artificial parece existir numa espécie de universo virtual, distante da natureza. Porém, para uma pergunta chegar até um sistema de IA e uma resposta voltar para a tela, existe uma infraestrutura gigantesca funcionando. São chips, processadores, data centers, redes, energia, sistemas de refrigeração e mineração.
Quanto maiores os modelos de IA, maior a necessidade de processamento, energia e infraestrutura. Como esses sistemas já estão presentes em áreas como saúde, finanças, transportes, logística e guerra, o debate sobre IA vai muito além dos algoritmos, envolve território, água, energia, mineração e terras raras. Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição estratégica por possuir grandes reservas desses minerais, essenciais à produção de diferentes tecnologias. 
Segundo os dados apresentados pelo pesquisador, o Brasil possui cerca de vinte e três milhões de toneladas em reservas de terras raras, ficando atrás apenas da China, com destaque para áreas em Minas Gerais e Goiás. Essa posição coloca o país no centro de uma disputa estratégica, especialmente porque as grandes potências já reconheceram o valor desses minerais. Destaca ainda que a China, além de concentrar cerca de setenta por cento das reservas, controla aproximadamente noventa por cento da produção mundial.
Isso mostra que não basta ter o mineral no subsolo. É preciso dominar sua extração, processamento, transformação industrial e aplicação tecnológica. Quem controla essa cadeia concentra riqueza, conhecimento e poder político. As terras raras brasileiras precisam ser tratadas como patrimônio estratégico, não como moeda de troca em negociações de curto prazo.
Um dos pontos mais provocadores do pesquisador, trata-se justamente da movimentação de capital estrangeiro no Brasil, ele relata a aquisição da empresa brasileira Serra Verde, em Goiás, pela empresa norte-americana USA Rare Earth. Na exposição, ele relaciona parte do financiamento da operação ao setor militar dos Estados Unidos e faz uma pergunta bastante simples: o que o Brasil vai ganhar com isso?
A pergunta vale muito mais do que qualquer resposta pronta. Estamos diante de uma questão de soberania nacional. Sérgio Sacani também menciona empresas estrangeiras atuando na região de Poços de Caldas e chama atenção para a participação de interesses norte-americanos na movimentação em torno das reservas brasileiras. A disputa já começou. A questão é se o Brasil participará dela como país soberano ou simplesmente como fornecedor de matéria-prima.
Garantir a soberania exige que o país domine toda a cadeia, da extração dos recursos ao desenvolvimento da tecnologia. Como destacou o pesquisador, a matéria-prima extraída pode valer cerca de cinco dólares o quilo, chegar a quinhentos após o primeiro processamento e alcançar aproximadamente cinco mil dólares no produto final. O risco para o Brasil é repetir uma velha relação de dependência, exportar riqueza bruta por pouco e depois importar tecnologia por muito mais. 
Diante disso, a discussão também precisa chegar ao debate eleitoral, porque as escolhas feitas nas urnas ajudam a definir qual projeto de desenvolvimento será adotado, como as riquezas estratégicas serão tratadas e se estarão a serviço da soberania nacional ou de interesses externos.
 
E para o movimento sindical, isso importa?
Importa, e muito. Uma política para as terras raras envolve indústria nacional, pesquisa, empregos, formação profissional, salários, direitos, ciência pública, transferência de tecnologia e desenvolvimento regional. Também envolve a biodiversidade, porque a mineração acontece em territórios onde existem rios, florestas, comunidades, trabalhadores e diferentes formas de vida. Por isso, não basta perguntar quanto vale uma mina, é preciso saber quanta água será utilizada, que rejeitos serão produzidos, quais territórios e comunidades serão afetados, quais riscos recairão sobre os trabalhadores e quem ficará com os lucros e com os impactos ambientais. Garantir soberania significa ter capacidade coletiva de decidir sobre nossas riquezas sem sacrificar a vida para ampliar o lucro privado.
Se o Sérgio Sacani pergunta quem controlará os recursos que sustentam a inteligência artificial, Nicolelis provoca outra reflexão: o que acontece com o ser humano quando passa a depender cada vez mais dela? Ele chama a IA de “Nina”,  Nem Inteligente, Nem Artificial, e defende que a inteligência humana não pode ser reduzida a cálculo. Para ele, o cérebro é orgânico, analógico e se transforma continuamente conforme vivemos, aprendemos, lembramos e nos relacionamos.
Nicolelis também questiona o caráter “artificial” desses sistemas ao lembrar que eles dependem de muito trabalho humano. São pessoas que classificam informações, corrigem dados, treinam modelos e realizam tarefas muitas vezes invisíveis e precárias. Ou seja, até a tecnologia que promete substituir trabalhadores continua dependendo deles para funcionar.


Não busco rapidez. Busco lucidez: o risco de terceirizar o pensamento
Se, por um lado, Nicolelis chama atenção para o trabalho humano escondido por trás da inteligência artificial, por outro ele provoca uma reflexão sobre o que acontece quando passamos a entregar às máquinas parte da nossa própria capacidade de pensar. Ao explicar que escreve seus livros lendo, fazendo anotações, relacionando ideias e construindo seu raciocínio, ele resume sua posição em uma frase: “Eu não busco a rapidez, eu busco a lucidez.” A provocação dialoga diretamente com um tempo marcado pela pressa, pela exigência de produtividade e pelo consumo rápido de informações. Mas rapidez não é sinônimo de conhecimento, muito menos de consciência.
Nicolelis não se coloca contra a tecnologia, ele próprio trabalha há décadas com seu desenvolvimento e relata pesquisas com interfaces entre cérebro e máquinas. Sua crítica está no uso indiscriminado da IA e na substituição de processos humanos complexos por respostas automatizadas. Ele cita exemplos de estudos onde estudantes que recorreram à IA tiveram melhor desempenho imediato em algumas tarefas, mas apresentaram mais dificuldades quando precisam demonstrar o conhecimento sem a ferramenta ou lembrar o que haviam produzido. O alerta é simples mas extremamente necessário, usar a tecnologia para ampliar nossas capacidades é uma coisa, deixar de exercitar o pensamento porque uma máquina pode responder por nós é outra.


Para onde caminha a juventude no novo mundo do trabalho? 
Essa discussão é especialmente importante para a juventude, que está entrando no mundo do trabalho e viverá de forma mais intensa as transformações provocadas por algoritmos, automação e inteligência artificial. Também será essa geração que enfrentará os efeitos da expansão dos data centers, do aumento do consumo de energia e da corrida mundial por minerais, além das consequências das decisões tomadas hoje sobre mineração, água, florestas, biodiversidade e clima.
Nicolelis chama atenção para sistemas capazes de acompanhar localização, consumo, preferências e comportamentos. Portanto, formar a juventude não pode significar apenas ensiná-la a usar ferramentas. É preciso desenvolver capacidade crítica para perguntar quem controla a tecnologia e os dados, quem lucra com ela, que trabalho existe por trás desses sistemas, quais recursos naturais são consumidos e quais decisões não podem ser simplesmente entregues às máquinas. Se a tecnologia transforma o trabalho, reorganiza profissões, amplia formas de controle e depende de recursos naturais e investimentos públicos, ela também é uma pauta sindical. Cabe ao movimento sindical disputar um projeto que articule desenvolvimento tecnológico, direitos, empregos de qualidade, ciência pública, proteção ambiental, defesa da biodiversidade, transparência nos algoritmos, proteção de dados e participação social nas decisões.


Não se trata de negar ou defender cegamente a tecnologia, mas questionar: tecnologia para quê, controlada por quem e a serviço de quem?
Depois de séculos de exploração intensa da Terra, retirando minerais, petróleo, água, florestas e outros recursos naturais em larga escala, a humanidade revela uma relação profundamente predatória com a natureza. Agora, diante dos limites e das consequências desse modelo, a Lua também passa a ser vista como uma nova fronteira de exploração e de disputa por recursos. 
Já estão sendo desenvolvidos projetos voltados à exploração da Lua, com propostas de instalação de estruturas, uso de recursos locais e até implantação de data centers fora da Terra. Esse movimento revela a continuidade de uma lógica predatória, depois de explorar intensamente os recursos do nosso planeta e produzir graves impactos ambientais, começa-se a projetar uma nova fronteira de exploração, como se o problema estivesse na falta de novos territórios e não no próprio modelo de desenvolvimento baseado na extração permanente e no uso ilimitado da natureza. 
Talvez seja importante nos perguntarmos, com qual lógica querem chegar na lua. Se levarem para o espaço a mesma lógica que concentrou riqueza, explorou trabalhadores, destruiu territórios e tratou a natureza apenas como estoque de recursos, estaremos apenas ampliando a fronteira de um velho problema. E é principalmente a juventude que precisa participar dessa conversa. Porque é ela que viverá o futuro que está sendo decidido agora.
Defender soberania, biodiversidade e tecnologia a serviço da sociedade é defender a possibilidade de continuar existindo vida com dignidade. E talvez seja essa a pergunta que deva orientar a formação e a ação sindical diante de tanta inovação, não apenas até onde a tecnologia pode chegar, mas que sociedade queremos construir com ela.
E, por fim, se o Brasil é historicamente conhecido por exportar commodities, está na hora de dar um passo além, exportar inteligência, transformar nossas riquezas em conhecimento, ciência e tecnologia produzidos aqui, com soberania e a serviço da sociedade.