IA, soberania digital e luta sindical: tecnologia também é disputa de poder
Texto debate como a inteligência artificial afeta trabalho, dados, meio ambiente e democracia, e defende a soberania digital como pauta estratégica da classe trabalhadora.
Publicado: 21 Maio, 2026 - 16h37 | Última modificação: 27 Maio, 2026 - 17h15
Escrito por: Escola Sul da CUT
O texto a seguir é resultado dos estudos desenvolvidos pela formadora da Escola Sul, Salete Aparecida Martins, no âmbito da disciplina “Debates em IA, Educação e Soberania”, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica da Universidade Federal de Santa Catarina — PPGECT/UFSC.
A Inteligência Artificial entrou na vida da gente sem pedir licença. Está no celular, nos aplicativos, nas redes sociais, nas ferramentas de trabalho, nos sistemas das empresas, nos bancos, nas escolas e até nas formas de comunicação dos sindicatos. Ela promete facilitar tarefas, organizar informações, produzir textos, imagens, vídeos e acelerar muita coisa. Mas aqui precisamos fazer uma pergunta: essa tecnologia está a serviço de quem?
Não dá para olhar para a IA como se ela fosse mágica, neutra ou inevitável. Toda tecnologia nasce dentro de uma sociedade marcada por interesses econômicos, disputa de poder, desigualdades e exploração do trabalho. Por isso, a IA pode até ajudar nos processos formativos, na organização de dados, na construção de materiais, na elaboração de perguntas e no apoio à comunicação. Mas ela só contribui de verdade quando é usada com consciência crítica, com mediação humana e com responsabilidade política.
No campo da formação, a IA não pode substituir aquilo que é mais importante, a leitura, o debate, a memória coletiva, a reflexão, a escuta e a construção de conhecimento entre trabalhadores e trabalhadoras. Formação não é apertar um botão e receber uma resposta pronta. Formação é compreender a realidade, fazer perguntas, comparar fontes, enxergar contradições e construir caminhos coletivos para transformar o mundo.
Por isso, o movimento sindical precisa tratar a IA como tema estratégico. Não basta aprender a usar a ferramenta. É preciso entender como ela funciona, quem controla seus dados, quais empresas lucram com ela, quais interesses orientam seus algoritmos e quais riscos ela traz para a organização da classe trabalhadora. Quando sindicatos, escolas, universidades e movimentos populares usam plataformas digitais sem questionar, podem entregar informações importantes, dados sensíveis e parte de sua autonomia para grandes corporações privadas.
É aqui que entra a soberania digital. Esse tema não é distante da luta sindical. Pelo contrário, soberania digital tem tudo a ver com autonomia, democracia, organização popular e defesa de direitos. Significa perguntar: quem controla a tecnologia que usamos? Quem armazena nossos dados? Quem define o que aparece ou desaparece nas redes? Quem decide os critérios dos algoritmos? Quem lucra com a nossa comunicação, com o nosso comportamento e com as nossas informações?
É preciso colocarmos a soberania digital na sua pauta porque a disputa do mundo do trabalho também passa pelo mundo digital. Hoje, empresas usam algoritmos para controlar produtividade, vigiar trabalhadores, organizar escalas, definir remuneração, demitir, ranquear desempenho e intensificar a exploração. Nas plataformas de aplicativos, isso aparece de forma escancarada. Mas essa lógica já está entrando em diferentes categorias. O patrão mudou a ferramenta, mas a exploração continua tendo endereço, nome e sobrenome.
Também não podemos cair no encantamento tecnológico, nem nos deixar levar pelo fetiche da inovação sem olhar para os custos ambientais que ela produz. Muitas vezes, a IA é apresentada como se existisse apenas “na nuvem”, de forma limpa, leve e imaterial. Mas essa nuvem tem chão ocupa territórios, consome água e energia, depende da mineração, envolve trabalhadores e impacta comunidades. A IA funciona por meio de data centers, servidores, chips, cabos, sistemas de refrigeração e equipamentos que demandam enormes quantidades de eletricidade e água para operar continuamente. Por isso, discutir inteligência artificial é também discutir os efeitos materiais dessa tecnologia sobre o meio ambiente, os territórios e a vida das populações que pagam parte dessa conta.
Cada resposta gerada, cada imagem produzida, cada sistema treinado exige infraestrutura funcionando sem parar. Os data centers precisam ser resfriados, e esse resfriamento pode consumir volumes expressivos de água. Em um mundo marcado pela crise climática e por regiões que já sofrem com falta de abastecimento, essa questão não pode ser tratada como detalhe técnico. Quando a água é usada para sustentar grandes estruturas digitais, ela deixa de estar disponível para outras necessidades sociais: abastecimento humano, agricultura, saneamento, saúde e vida comunitária.
A energia também é parte dessa conta. O processamento de dados e o treinamento de algoritmos exigem muita eletricidade. Mesmo quando se fala em energia renovável, é preciso perguntar: essa demanda está sendo planejada? Quem paga a conta? Quais territórios são pressionados? A expansão da IA pode aumentar a emissão de gases de efeito estufa, pressionar redes elétricas e atrasar uma transição energética justa, principalmente quando não há regulação, transparência e controle público.
E tem mais, a IA também depende da mineração. Para fabricar chips, baterias, servidores e equipamentos eletrônicos, são necessários minerais como lítio, cobalto, níquel, cobre e terras raras. Muitas vezes, essa extração ocorre em países do Sul Global, com degradação ambiental, exploração do trabalho e violação de direitos. Ou seja, aquilo que aparece como inovação limpa e moderna para alguns pode significar destruição de territórios e sofrimento para outros.
Por isso, a luta pela soberania digital precisa caminhar junto com a luta por justiça ambiental e justiça social. Não podemos aceitar uma tecnologia que concentra lucro nas grandes empresas, captura dados da população, aumenta a dependência dos países periféricos e ainda joga os custos ambientais sobre comunidades vulneráveis.
O nosso desafio não é rejeitar a IA automaticamente e também não é aceitar a IA de olhos fechados. É disputar seus usos, seus sentidos e suas regras. A IA pode ser uma ferramenta útil quando ajuda a organizar conhecimento, fortalecer a comunicação, apoiar processos formativos e ampliar a capacidade de análise da classe trabalhadora. Mas ela se torna perigosa quando substitui o pensamento crítico, aprofunda desigualdades, privatiza dados, alimenta vigilância e esconde seus impactos sociais e ambientais.
A formação cutista tem um papel fundamental nesse debate. É preciso formar dirigentes, lideranças e trabalhadores para compreenderem a tecnologia para além da aparência. Não basta perguntar como usar?. É preciso perguntar, para quê?, a serviço de quem?, com quais limites?, com quais riscos? e com quais consequências para a classe trabalhadora?.
Colocar a soberania digital na pauta sindical é defender que o povo trabalhador não seja apenas usuário de tecnologia, mas sujeito político capaz de disputar seus rumos. É defender transparência, regulação, proteção de dados, alternativas livres, controle social, justiça ambiental e participação democrática nas decisões sobre tecnologia.
No fim das contas, a pergunta não é apenas o que a Inteligência Artificial pode fazer por nós. A pergunta decisiva é outra: o que nós, como classe trabalhadora organizada, vamos decidir fazer com ela? Porque tecnologia sem consciência crítica pode virar ferramenta de controle. Mas tecnologia debatida, disputada e colocada a serviço da vida pode fortalecer a organização, a formação e a luta por uma sociedade mais justa.
