A violência contra mulheres não é problema privado, é questão de classe e de democracia. O movimento sindical tem responsabilidade em prevenir, acolher, denunciar e transformar essa realidade.
O combate a toda forma de violência contra as mulheres será uma das pautas centrais deste ano. O enfrentamento ao feminicídio deve ser uma responsabilidade coletiva, de mulheres e homens, independentemente da orientação sexual. Trata-se da expressão mais brutal de um ciclo de violências que se alimenta de desigualdades históricas, relações de poder e de uma cultura que ainda tolera,ou relativiza, agressões contra mulheres. Quando uma mulher é assassinada por ser mulher, toda a sociedade é ferida. E, para quem exerce liderança política, sindical ou em movimentos sociais, essa ferida traz uma pergunta incômoda e necessária: o que temos feito, concretamente, para impedir que a violência avance até o extremo?
Na Escola Sul, espaço de formação e reflexão crítica, reafirmamos que enfrentar o feminicídio é parte do projeto de transformação social que defendemos. A luta das mulheres tem sido, há décadas, linha de frente dessa agenda. Mas ela não pode continuar sendo tratada como “tema de mulheres”. A responsabilidade é coletiva. E dirigentes homens e mulheres têm o mesmo grau de responsabilidade, especialmente porque ocupam espaços capazes de transformar práticas, decisões e culturas organizacionais.
Vale lembrar que o governo federal, por meio de seus ministérios e de diversas campanhas, tem realizado uma série de esforços no combate aos feminicídios. No último dia 4 de fevereiro, foi lançado o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, reforçando o compromisso do Estado com a prevenção e o enfrentamento a essas violências.
O feminicídio é um problema político, social e cotidiano
É comum que a violência de gênero seja lembrada apenas quando vira manchete — como se fosse um “ponto fora da curva”. Mas o feminicídio é, na verdade, o resultado final de uma sequência de violências normalizadas: controle, humilhação, ameaças, perseguição, isolamento, agressões físicas e psicológicas, assédio, chantagem. Em muitos casos, essa escalada foi vista por pessoas próximas, atravessou ambientes comunitários e locais de trabalho, e encontrou portas fechadas, silêncio ou descrença.
Por isso, falar de violência contra as mulheres exige mais do que indignação. Exige reconhecer que a prevenção começa antes, quando interrompemos as pequenas permissões que sustentam a cultura de violência: a piada que desumaniza, o comentário que culpabiliza a vítima, a “brincadeira” invasiva, o “ciúme” romantizado, a tentativa de controlar roupa, amizades, horários e autonomia.
Por que os homens dirigentes têm responsabilidade direta
Lideranças e dirigentes homens no sindicato, no partido, no movimento, na associação comunitária não são espectadores neutros. Em nossas organizações, a liderança ajuda a construir caminhos, a definir o que é aceitável e o que não é. Constrói coletivamente como as denúncias são tratadas, se há acolhimento ou revitimização, se o erro é corrigido ou varrido para baixo do tapete. Como também se a organização protege a vítima e não o agressor.
Há um ponto central: o silêncio também é uma escolha política. Quando um dirigente evita se posicionar, quando relativiza “porque é companheiro antigo”, quando trata violência como “problema pessoal”, quando desqualifica um relato por conveniência, ele contribui para manter o ambiente inseguro. Isso não significa substituir o protagonismo das mulheres; significa assumir a parte que cabe a quem, historicamente, foi educado para ter privilégios e para ser poupado da responsabilização.
Se queremos uma sociedade de igualdade e justiça, nossos espaços precisam ser coerentes com esse projeto. E coerência, aqui, tem nome: responsabilização, prevenção e cuidado.
Agora é hora dos homens assumirem postura ativa sobre este assunto
Houveram avanços significativos, por conta de mulheres ativistas, parlamentares, ministras ou lideranças que pressionaram e conseguiram a aprovação de políticas públicas, e se construíram redes de denúncia, acolhimento, proteção e formação. Avançaram em leis e instrumentos institucionais. Muitas vezes, fizeram isso enfrentando resistência dentro das próprias organizações.
Reconhecer esse caminho é parte do respeito histórico e político.
É comum que campanhas e chamadas se multipliquem, enquanto atitudes práticas seguem ausentes. Homens precisam agir, não apenas apoiar com palavras. Agir significa conversar com outros homens; enfrentar comentários e posturas violentas; rever condutas; promover ambientes seguros; defender políticas de acolhimento; apoiar a rede de proteção; e divulgar canais de denúncia como o Ligue 180, serviço nacional de orientação e encaminhamento.
O nosso papel como formadores no enfrentamento à violência de gênero
Formação é a oportunidade de transformação da teoria e da prática: é se colocar no lugar de quem aprende e de quem educa. Como escola de formação sindical, temos a responsabilidade de manter esse tema em debate permanente. Isso significa:
A formação sindical é estratégica porque permite dialogar, informar e mobilizar. Por isso, cada homem dirigente influencia muitos outros homens – e esse efeito multiplicador pode ser decisivo.
O que os dirigentes podem fazer agora
A responsabilidade precisa virar rotina, política e prática. Algumas ações concretas:
A Escola Sul reafirma: a luta pelo fim da violência contra as mulheres é luta da classe trabalhadora, dos movimentos populares e de todas as pessoas comprometidas com a democracia e os direitos humanos. E reafirma também que homens dirigentes precisam estar à altura dessa tarefa, para além de “apoio”, mas como parte responsável pela mudança.
Que a nossa formação produza mais consciência e atitude. Que nossos espaços sejam exemplos de respeito. E que cada dirigente em posição de liderança mobilize outros homens — porque, diante da violência, a neutralidade não existe.